quarta-feira, 2 de julho de 2008

Nico Audio, Música e Tecnologia

Nico na revista Audio, Música e Tecnologia, por Rodrigo Sabatinelli



> NICO NICOLAIEWSKY - ONDE ESTÁ O AMOR?


Ele acordou bêbado numa tarde de sábado e colocou o disco pra tocar, era Onde está o amor?, terceiro de Nico Nicolaiewsky, pianista, acordeonista, cantor e compositor gaúcho, fundador do Musical Saracura, banda mais importante daquele Rio Grande surgida na virada dos anos 70 pros 80. Ele já havia assistido ao Tangos & Tragédias - espetáculo musical, na verdade, um duo de violino e acordeom, e maior fenômeno da história do showbizz nos Pampas - e fazia propaganda gratuita do cara nas rodas de amigos.

Vivia um período difícil, tinha acabado de se separar da última mulher e não estava nada preparado para ouvir canções de amor, mas, quando se deu conta, já era tarde. Olhou pra capa do CD, se identificou com a imagem de uma interrogação que formava um coração e decidiu encarar a missão. Play no aparelho, Sou eu e mais ninguém rolando e ele começa a ficar tenso. Passa a mão na testa suada e tenta não prestar atenção na letra, muito menos no refrão, que repetia seguidas vezes a frase "assim quero lembrar de nós". Achou melhor se prender ao som do pianinho e ao "Pá-pá-pá-pá-pá" a la Mamas & The Papas. Não agüentou, pulou a música e caiu na faixa-título.

"Onde está o amor? Onde está o amor? Onde está o amor? Onde está o amor?" Ficou louco. Mas não negou a si que estava adorando. No fundo, ele estava. Mesmo sofrendo, permitia que seu lado romântico aflorasse um pouco em meio àquele furacão. "Todo mundo tem alguém que já se foi, todo mundo tem alguém que não está". Ouviu, voltou, ouviu de novo. Gostou. Cantarolou e deixou rolar. Até que chegou ao refrão e... "volta, menina! Volta menina!". Começou a rir. Não sabia se de felicidade ou da própria cara de panaca. Quando Só você não vê invadiu o apartamento, reconheceu o toque de dois músicos presentes na faixa, John Ulhoa e Xande Tamietti, respectivamente, guitarrista e baterista do Pato Fu. John, inclusive, é quem assina a produção do disco, além de ter gravado e mixado o trabalho, no estúdio 128 Japs.

Seus olhos brilhavam e ele estava completamente envolvido. Mas correu da raia de novo quando escutou algo como "nada faz sentido se você não está aqui comigo. Volta pra mim! Eu não quero ser só seu amigo, não me importo de correr perigo. Volta pra mim!". Nada disso, correr perigo era t-u-d-o o que ele não queria naquela hora, mas reconheceu que a letra, escrita pelo artista em parceria com outro gênio do sul, Totonho Villeroy, era belíssima.

Tudo o que eu fiz atravessou seus tímpanos através de frases que pareciam agulhas e colocavam-no a pensar na vida. Sim, sábado de tarde, bêbado, pensando na vida e ouvindo Nico Nicolaiewsky. Surreal! Pra se enganar, novamente tentou não prestar atenção na letra e pegou a capa do CD. Folheou o encarte e, mais uma vez, deu de cara com a interrogação em forma de coração. Decidiu tatuá-la - incluindo o título do disco - no braço direito tamanha identificação.

Ele teve que abrir a janela e gritar quando Nico começou, delicadamente, a cantar Te amei tanto. Ameaçou se jogar e a vizinha ofereceu ajuda. Riu ironicamente e, com isso, perdeu a razão. Ela fechou as cortinas na sua cara, mas, só de birra, cantou pra todo mundo do prédio ouvir: "te amei tanto que não sobrou nada pra depois". O síndico interfonou p*#! da vida, mas de nada adiantou. Ser feliz é complicado tocava tão alta, que ele sequer ouviu chamar. Só soube no dia seguinte pela tal mulher que, então, havia se rendido.

No feeling, seguiu os versos de Bombas de beijo, "rajadas de intenso desejo", e convidou uns amigos pra terminar a audição. Quando A vida é confusão rolou, não somente ele, mas todos caíram na gargalhada. Só pararam mesmo pra aplaudir o dramático arranjo de cordas da canção. Até que Pra que o amor? contradisse tudo o que havia dito nas letras anteriores e ele se colocou a pensar, mas rapidamente concluiu: "daí? O amor é mesmo uma contradição. No fundo, Nico estava mais uma vez certo e bla-bla-blá".

E foi justamente na última música, Advertência, que Nico resolveu abrir o jogo: "se você quer sinceridade, fique longe das canções". "Sacanagem, né, Senhor Nicolaiewsky? Cê podia ter dito antes!", falou a si mesmo. Mas era tarde. Àquela altura, ele já havia chorado, sorrido, gargalhado, brigado, incomodado os vizinhos, convidado outros tantos e ainda virado fã de carteirinha do tal cantor.

Ele, na verdade, sou eu, o que pode deixar muita gente revoltada por aí achando que perdeu um tempo ferrado pra ler uma crítica que mais fala de uma tarde solitária do que propriamente de um disco. Mas, sejamos honestos, Nico deixou pra abrir o jogo no final da "festinha". Logo, eu também tive direito de brincar. Ou não?! (Rodrigo Sabatinelli)