
Canções sinceras, podes crer
Disco romântico usa melancolia para driblar a breguice
Marco Antonio Barbosa
O pop gaúcho tem uma história antiga de amor – sincera, mas irônica – com a música romântica. Nico Nicolaiewsky, mais conhecido como metade do duo Tangos & Tragédias, lança um trabalho solo no qual se distancia tanto do humor do T&T quanto da fanfarra jovemguardesca de conterrâneos igualmente chegados ao romantismo, como Frank Jorge.
É um disco "adulto", calcado em melodias pop belas e simples e arranjos econômicos pilotados pelo produtor John Ulhoa (do grupo Pato Fu, que também empresta o baterista Xande e Fernanda Takai, a voz do rock Pra que o amor). As referências mais claras, na verdade, não vêm das plagas gaúchas, e sim de obras mais antigas: Loki?, o igualmente romântico solo que Arnaldo Baptista gravou em 1974, e também dos Beatles, cuja influência aparece nos timbres vintage e nos arranjos vocais.
Em momentos como Te amei tanto, com seu vocal nitidamente emocionado e o piano em primeiro plano, ou a leve psicodelia de Bombas de beijo (com teclados aparentados aos de Strawberry fields forever, dos Beatles), a lembrança de Loki? bate forte. O tom beatlesco sobressai em Tudo que eu fiz e Ser feliz é complicado. Apesar de avisar ao ouvinte que se ele quiser sinceridade deve ficar longe das canções, Nicolaiewsky soa verdadeiro. As letras são desbragadamente românticas, mas sofrem de uma certa melancolia que espanta a suspeita de cinismo – e ao mesmo tempo dribla a breguice. E mesmo o potencialmente piegas ("É que quando não choro/Fica seco o meu jardim") se torna bacana, no fim das contas.
[ 03/06/2008 ] 02:01