Já falavam do novo CD do Nico por aí, olha que bacana:
Nico Nicolaiewski esteve em todos os lugares-comuns da lírica amorosa a fim de descobrir o paradeiro do amor. Acompanhado de fiéis e hábeis escudeiros, revisitou rocks, valsas e baladas para empreender a jornada em busca desse sentimento cada vez mais restrito à dimensão dos mitos. Apesar de retornar dessa empreitada dantesca sem respostas objetivas, o compositor nos trouxe, cuidadosamente resguardado em seu alforje, o CD Onde está o Amor?, lançado recentemente pelo selo Bela Música.
Na evidência do fim de um grande amor, o poeta inicia sua jornada na solidão de quem ainda guarda uma centelha, uma réstia do brilho da paixão perdida. Ouvindo o tema de abertura, a quase brega Só eu e mais ninguém, parceria de Nico com Fernando Pezão, pensamos o quanto seria bom se as duplas românticas espalhadas Brasil a fora nos presenteassem com canções desse calibre.
Ao som de teclados e programações eletrônicas de John Ulhoa (que também assina a produção do disco), nosso herói pergunta: onde está o amor / que eu não conheço / onde está o amor / eu quero estar também. A atmosfera de Onde está o amor? remete a uma paisagem brumosa, enevoada, na qual o personagem, perdido, desorientado, lança ao léu suas interrogações. É apenas o início da viagem.
Sinalizando que estamos de volta ao mundo real das lembranças do poeta, as programações eletrônicas cedem espaço à bateria seca e vigorosa de Diego Silveira e à guitarra básica e roqueira de Luciano Albo na balada Volta menina, parceria com Cláudio Levitan.
A partir daí, nosso guia do labirinto revive paixões platônicas (Só você não vê, de Nico e Pezão), amores não correspondidos (Nada faz sentido, parceria com Antônio Villeroy), a perda de si mesmo (Tudo que eu fiz, outra excelente balada em parceria com Levitam) e o vazio inevitável (Te amei tanto, uma canção intimista assinada somente por Nico).
Na oitava faixa, Ser feliz é complicado (também composta sem parceria), o poeta cai em si, deixa as lembranças para trás e encara com otimismo o caminho a sua frente: Vou deixar o sol entrar / acabar com a escuridão / abrir a janela do quarto / e gritar para o mundo / eu quero outra chance. Destaque para os lindos arranjos vocais de Nico, Albo e Ulhoa.
O clima de apoteose e positividade cresce em Bombas de beijo (também com Villeroy). A esperança desmedida arremessa nosso perseguidor a um estado alucinatório. Sedado pela perspectiva de encontrar o amor finalmente, o poeta narra sua miragem: Tudo se move / o mundo me envolve / e os dias velozes não vejo passar / A cidade tomada de pura alegria / e o povo a cantar.
Como quem anda em círculos, repetindo estéreis diálogos internos, o narrador retoma a dúvida e a indecisão na música A vida é confusão (outra só de Nico). No entanto, como se percorresse uma estrada em espiral, a cada volta o poeta está além; já não há retorno possível e, no enfrentamento das contradições, ele parece se aproximar mais do que nunca de seu destino de amor e glória: A vida é confusão / a vida vai seguir / os homens vão sonhar / os deuses vão sorrir / a vida é confusão / o mundo vai girar / os deuses vão dançar.
Na ante-sala do paraíso, entretanto, uma nova, fatal e aterradora pergunta acomete nosso mártir: Pra que o amor? (parceria com Levitan). Como numa ópera, a trama chega ao climax adquirindo um tom bombástico. A revolta e o inconformismo tomam conta do poeta que decide sair pra rua / cansei da solidão / vou me esconder agora / na multidão.
A valsa Advertência (somente de Nico) fecha o disco com uma inesperada conclusão: se você quer sinceridade / fique longe das canções / pois aqui nada é de verdade / nem o amor nem as paixões. Embora o tom burlesco do instrumental dê a impressão de que nosso amigo embirutou de vez, trata-se, na verdade, do momento de maior lucidez de toda a jornada. Se o amor não está nas canções, que tal procurá-lo na vida real, no brilho dos olhos, nas palavras sinceras, no abraço fraterno, na beleza das imperfeições do cotidiano?
Talvez o verdadeiro amor esteja no cuidado que Nico Nicolaiewsky dispensou na realização deste disco. Gravado nos estúdios Beco das Garrafas e Kiko Ferraz Studios, de Porto Alegre, e Estúdio 128 Japs, de Belo Horizonte (onde foi também mixado) e masterizado no Classic Master, de São Paulo, com ajuda dos escudeiros Diego Silveira, Fernanda Takai, John Ulhoa, Luciano Albo, Thiago Braga e Xande Tamietti, Onde Está o Amor? é dos trabalhos mais bem acabados e ricos em beleza humana dos últimos tempos.
Se você quer sinceridade, não deixe de ouvir esse CD.
Acesse o site oficial de Nico Nicolaiewsky
Carlos Hahn