Mais recente exemplar da onda de livros sobre Caio Fernando Abreu é um relato pessoal de uma amiga do escritor, a jornalista Paula DipCaio Fernando Abreu não deve ser gaúcho. Caio Fernando Abreu sequer deve ser brasileiro. Num país em que biografias são censuradas, biógrafos têm a liberdade tolhida e, muito em razão disso, a trajetória de importantes artistas e vultos históricos permanece um tanto obscura, a onda de livros em torno do autor de Morangos Mofados tem um louvável tom irrealista.
Omais recente desses volumes é Para Sempre Teu, Caio F., da jornalista Paula Dip (Ed. Record). Trata-se de um relato de caráter biográfico, porém sem a rigidez de pesquisa característica do gênero. Não que o livro seja descuidado com dados históricos, longe disso. O que a autora faz em 504 páginas fartamente recheadas com fotos, cartas e depoimentos é reconstruir a trajetória do escritor a partir de seu ponto de vista pessoal – ou seja, privilegiando certas épocas de sua vida e características de sua personalidade em detrimento de outras.
Paula e Caio Fernando Abreu (1948 – 1996) se conheceram na editora Abril, diz a autora, às vésperas dos anos 1980 – é ali que o livro começa e para onde volta a toda hora como se dali não quisesse sair. Trocaram confidências, correspondências e, ela conta na introdução, promessas de publicá-las. Não só para cumpri-las que Para Sempre Teu ganhou forma – como Italo Moriconi já mostrou em Caio Fernando Abreu: Cartas (Ed. Aeroplano, 2002), o Caio missivista é tão irresistível quanto o Caio ficcionista.
Além da reprodução das cartas, muitas reveladoras – o autor de Onde Andará Dulce Veiga? se entregava por completo a cada texto, por mais cotidiano que fosse –, a autora apresenta depoimentos igualmente impactantes. Valendo-se de sua condição de amiga, de Caio e das demais fontes do livro, a jornalista conseguiu verdadeiras confissões sobre o biografado (leia ao lado). Algumas são apresentadas na íntegra, ocupando uma, duas páginas inteiras, porém são tão interessantes que nem assim atravancam a leitura.
Paula talvez nem tentasse, mas deixou mais perceptível a riqueza da personalidade de Caio F. – e contribuiu com mais um passo, além dos já dados por Moriconi e Jeanne Callegari (de O Inventário de um Escritor, Ed. Seoman, 2008), para que tenhamos melhores condições de ler, absorver, desvendar a sua obra. Como deveria ser com qualquer personagem histórica ou culturalmente importante.
Depoimentos reunidos em “Para Sempre Teu, Caio F.”
“A gente andava com o New York Times embaixo do braço, se achando o máximo, mas o Caio não estava nem aí. Ele tinha um desdém pelo jornalismo, mas não porque não gostasse ou fosse incapaz de fazê-lo; pelo contrário, era um ótimo jornalista, só que tinha uma atitude crítica, uma ironia velada, tipo ‘seus cretinos, vocês se acham muito importantes’. Caio ridicularizava a seriedade de brigas como a que teve com a Veja. Desdenhava o poder. Tinha uma cultura extraordinária, mas não fazia pose.”
NIRLANDO BEIRÃO, JORNALISTA
“Quando Caio ficou doente e voltou a Porto Alegre, nos anos 1990, eu ligava para ele diariamente. Ele lutava contra a morte e ainda assim ficava me perguntando sobre todo mundo: queria saber quem estava comendo quem, quando, onde e por quê. Continuava louco por fofoca, no maior astral, rindo, fazendo graça.”
MÔNICA FIGUEIREDO, JORNALISTA
“Das minhas heterossexualidades, dois filhos mortos (referência a dois abortos), não ficou nada. Das minhas homossexualidades, esse pânico lento e uma solidão medonha”.
CAIO FERNANDO ABREU, EM CARTA DE 1985